segunda-feira, 12 de setembro de 2011





O dia havia amanhecido para Alice com gosto de luto. Aquela sensação esmagadora no peito, sufocando esperança, sentimentos, cores da vida. O dia havia amanhecido, literalmente, cinza.
Se arrastou pela casa, solitária, tomou café por rotina e obrigação. Luto misturado à ressaca emocional de algo sem causa aparente invadiam a casa pelas portas e janelas.
A sensação de ter que começar tudo de novo, mais uma vez, a obrigatoriedade de ter que continuar sem fraquejar, de provar a si e aos outros que podia estava cada vez mais exaustivo. Como era pesado carregar o mundo.
Mais pesado ainda era não ter o que fazer, era o conformismo que predominava, não pela falta de luta, mas pela falta de escolha. Não havia o que fazer. Ou continuava seguindo em frente ou abandonava tudo.
Ao fim da tarde Quixote apareceu.  Alice fazia de tudo para sustentar os problemas sem deixar transparecer. Mostrar pra que? Não haveria nada que ele pudesse fazer.
Mas não deu certo. Perto da hora de Quixote partir, Alice fraquejou. Chorou, chorou muito, sem fazer barulho, sem respirar.
- Alice, eu estou aqui com você!
- Eu sei que está Quixote. Mas você vai embora.
- Mas eu sempre volto.
- Você não entende? Não é questão de voltar sempre. É a questão de precisar sempre ir!
- Mas eu vou pra depois voltar.
- Só que o mundo gira Quixote...
- Tá, e daí?
- Daí que ele nunca para de girar...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011



Alice acordou cedo, morta de fome. Olhou no relógio, ainda eram 5 horas da manhã. Plena madrugada. Com muita resistência em levantar, pois estava morrendo de sono e sua cama estava deliciosamente confortável, perambulou pela casa com as luzes apagadas até a cozinha em busca de algo para comer.
Chegando lá, observou que em cima da mesa havia um único pedaço de bolo. O pegou e foi comendo pelo caminho até sua cama, a qual deitou e dormiu por mais algumas horas.
Quando acordou, o dia estava ensolarado e limpo. Com tantas coisas pra fazer, pensou que seria uma pena desperdiçar aquele dia lindo com afazeres, mas alguns sacrifícios precisam ser feitos se queremos obter resultados. Resolveu então sacrificar o dia, tinha muito que fazer.
Quixote apareceu e foi até o quarto. Percebendo que Alice não estava, retornou para o jardim.
Ela o viu passar e não cumprimentá-la, entretanto imaginou que poderia estar distraído pensando em seus afazeres. Quixote também tinha muito que fazer durante aqueles dias, e sempre que Alice podia, conversava com ele sobre isso, ajudava a tomar decisões entre outras coisas.
- Olá Quixote! – Disse Alice sem obter resposta. Estranhou mas deixou passar, ele andava tão preocupado que era compreensível sua distração.
Quixote então começou a trabalhar em seu novo projeto pelo jardim e Alice ficou a observá-lo.
- Quer ajuda? – Outra vez Alice não conseguiu resposta alguma.
- Quixote! Estou falando com você! – E nada dele demonstrar ouvi-la.
Estranhando sua distração, Alice foi chegando perto dele e notou então como estava diferente.
Ela estava pequena! Do tamanho de uma formiga! Haveria sido culpa do bolo ou Quixote realmente não a notava por estar absorto somente em suas preocupações?
E como faria Alice então para ser notada por ele? E ele não havia nem sentido a falta dela... Em outra ocasião ele no mínimo a teria procurado! Uma mistura de sentimentos envolviam Alice.
Se sentia indefesa, incapaz, completamente esquecida. Estava triste e com raiva.
Foi quando teve uma idéia. Se aproximou de Quixote e mordeu-lhe a perna. Devido à dor, Quixote gritou e a jogou longe, machucando-a.
- Malditas formigas! – resmungou Quixote esfregando a perna para amenizar a dor.
Quixote não a via. Nem na sua tentativa de ser notada. Às vezes, ferimos alguém sem querer, apenas para dizer-lhes que estamos ali, que queremos ser vistos, notados, e quando tentamos de outra forma e falhamos, apelamos. Estamos pedindo para ser amados e cuidados.
Hey Quixote, você poderia me ver? Poderia cuidar de mim sem eu pedir?
Poderia... ?

domingo, 31 de julho de 2011



Alice estava sentada no galho de uma árvore admirando as estrelas. A noite estava fresca, propícia para ser admirada. Quantas estrelas tinha o céu, e como brilhavam! Tão reluzentes quanto os olhos de Quixote.
Haviam passado bons dias, estavam em sintonia novamente, total e plena, envolvidos em uma completude de dar inveja! Nada mais importava, apenas eles mesmos, e naquela ocasião, o céu e suas estrelas.
Quixote escalou até o galho onde Alice estava e se sentou ao seu lado. Tocou de leve sua mão e ela retribuiu com um sorriso leve.
- Nenhum brilho delas se compara ao seu – disse Quixote olhando pra ela fixamente.
Alice corou e riu – Todo bobo...
- Tenho direitos tá? Estão no nosso contrato!
- Contrato? Que contrato? Não me lembro de nenhum...
Quixote ria com a inocência de Alice e ela parecia gostar da brincadeira. Apesar de viverem em um mundo completamente diferente, conseguiam criar mais mundos dentro deste mesmo mundo. Coisa de Alice e Quixote.
Entretanto, de repente, Alice desfez o sorriso devagar e sua face pareceu preocupada, até mesmo triste. Fitava os pés e a altura a qual estava. Quixote percebendo, tocou novamente sua mão e a olhou seriamente, como se esperasse uma explicação.  Alice no entanto, apenas o olhou nos olhos e dando um sorriso triste, voltou a olhar para os próprios pés.
- O que foi? – Indagou Quixote preocupado.
Alice não respondeu, mas deixou escapar pesadas lágrimas. Tentou enxugá-las com rapidez, mas a luz da lua iluminou seu rosto de relance acusando a Quixote que ela chorava.
- O que foi Alice? Não vai me contar por que chora?
Alice continuou em silêncio.
- É por que vou embora?
Alice apenas suspirou.
- Eu também queria ficar, ou melhor, queria levar você comigo.
- Queria que você ficasse, queria ir com você. Não pode mesmo ficar?
- Estou fazendo o possível para isso...
Mais algumas lágrimas pesadas rolaram. Não havia o que pudesse ser feito, estava fora de alcance. Até poderia parecer um exagero tendo vista que o mundo de Quixote era vizinho do de Alice, mas só quem sente sabe o quanto dói uma saudade. ..

segunda-feira, 4 de julho de 2011






Alice andava chateada. Os tremores, aqueles malditos tremores que pareciam não passar nunca! Acalmavam durante alguns dias, mas depois vinham com o dobro de força e tudo o que Alice reconstruía enquanto ele cessava, tornava a ficar destruído. Aquilo tudo estava mesmo muito cansativo.
Quando não agüentava mais, chorava igual criança pequena e ficava aos soluços. Depois tinha sonhos esdrúxulos quando adormecia, e acordava aos pulos de madrugada, sem ninguém pra abraçar. 
E quando vinham os pesadelos então?!
Pra esses, ela nem precisava dormir. Eles estavam por toda a parte, vinham aos montes, às vezes mais de um ao dia, o que só a deixava ainda mais cansada.
Tudo o que ela queria era alguém que percebesse seu estado, a abraçasse forte e a fizesse se sentir segura. Mas talvez, isso fosse pedir demais...
A verdade é que no fundo ela estava só, e sabia disso. Talvez fosse necessário alguém que realmente a conhecesse, que soubesse lidar com ela, com seus imprevistos.
Alice é uma garota imprevisível. Não é para qualquer um.
Entretanto, pecava ao criar expectativas demais sobre as pessoas. Principalmente sobre aqueles que ela mais amava.
Amar não é fácil. Amar é se permitir fazer sofrer pelo outro e ainda assim continuar amando.
Mas às vezes, pairava a duvida: Será que valeria a pena tanto sofrimento?
Talvez fosse necessário alguém que estivesse na mesma sintonia que ela, alguém para compartilhar idéias, alguém que não fosse necessário se explicar sempre...
Um querer difícil...
Complicada como ela, querer alguém com estes atributos, era realmente, querer demais...
- “O sofrimento é certo para mim. Será eterno. Eu não me contento com o pouco e ainda busco o inimaginável. Achei tê-lo encontrado uma vez, mas agora parece que se perdeu, que não fala mais a mesma língua que eu. Só sabe me fazer promessas vagas... Sei que sou exigente, quero demais, exijo demais, vivo demais. E se isso me fizer viver com a solidão, então que ela venha e me lamba a face mais uma vez. Talvez ela seja mesmo a minha melhor amiga, meu cão guia... Ela não me promete nada! Quando quero alguém pra conversar, ela está lá... Para sair? Ela está lá. Para chorar? Ela está lá. Tal qual a morte, surda, que me ronda dia a dia, e eu não sei a hora que virá me beijar...”

quarta-feira, 8 de junho de 2011


Às vezes, mesmo sem querer, existem coisas no dia a dia, comportamentos, tanto seu como meu, que me repelem pra longe de você.
Às vezes eu tenho a impressão que meu barco ancorou no seu porto, mas não existe âncora para mantê-lo preso e eu tenho que ficar segurando a corda dele, para que possa então continuar afixado aqui, junto com você, enquanto você observa sem saber o que fazer.
Só que as vezes também é muito difícil continuar segurando esta corda, deste barco sozinha.
A corda é grossa, machucam minhas mãos, o barco chacoalha com a maré e quer ir para longe, enquanto eu utilizo de toda a minha força para fazê-lo ficar. Se algo nele quebra, eu preciso dar um jeito de consertar e ter esperanças que ele não vá se afastar do seu porto, por que você não sabe se pode segurar a minha corda ou não.  Você era mais decidido antes, o que aconteceu?
Às vezes tenho vontade de soltar de vez essa corda, e ver aonde meu barco me leva... e sei que vai ser incrivelmente neste momento que você vai se tocar que se não segurar a corda, vai me perder talvez para sempre. 
Mas aí... aí pode ser que eu diga que não é mais necessário segurar a corda, e que eu desejo realmente partir. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011





Por mais que eu more no País das Maravilhas e tenha Quixote comigo, o amor da minha vida, que me completa e agüenta minhas loucuras, as vezes tenho uma sensação de incompletude tão grande, que só consigo extravasar com choros baixinhos na noite por qualquer motivo que me faça sentir mais vulnerável.
É como se eu ainda não tivesse encontrado um sentido pra minha vida, como se não tivesse realizado todos os meus sonhos. Tem tanta coisa que eu gostaria de fazer, lugares pra visitar, livros pra ler...
Sinto uma saudade enorme do meu passado, das pessoas que eu conheci e que por força maior tive que deixar pra trás. Parece que todo o sentido da minha vida ficou nas mãos delas e agora já não sei mais o que fazer para resgatá-lo.
Sinto uma solidão, um peso na alma que deixa tudo escuro, que trás um gosto acre na boca, que deixa tudo pardo, um cansaço de viver que se mistura com uma necessidade enorme de viver, de sentir a vida, de competir o som da voz com o próprio eco.
Sei que comigo tudo é ao extremo, amo demais, sinto demais, e por mais que eu viva demais ainda sinto que falta algo a ser vivido, algo pra completar o vão que ficou, pra fazer superar a resistência criada por mim de se deixar cativar...
Enfim, como Quixote me disse essa semana: “ Você é a pessoa mais humana que eu conheço...” 

quinta-feira, 21 de abril de 2011



- Como assim ela era bonita?
Alice questionou Quixote à respeito de uma garota com quem ele havia se envolvido antes dela, e não estava gostando muito do rumo da conversa.
- Ué, você perguntou se ela era bonita e eu respondi com um “é” seco.
- Podia ter respondido com um “não” seco!
A semana já não estava boa e as coisas ainda conseguiam piorar.  Tempestades haviam invadido o mundo de Alice e sempre que ela achava que o sol voltaria a brilhar, chovia mais torrencialmente do que nunca. A tempestade havia deixado muita coisa fora do lugar e a vida de Alice era uma delas.
- Alice, não precisa ficar assim por conta disso, você sabe que meus olhos são só seus.
- Você gostaria de ouvir esse tipo de coisa de mim?
- Não, exatamente por isso que eu não pergunto.
- Você nunca pergunta nada! Nunca percebe nada, eu sempre tenho que vir atrás de você rastejando sua atenção quando eu não estou bem por que nem isso você consegue perceber! Minha semana foi um inferno e só piora e você ao invés de me ajudar, só está me deixando mais triste!
- Mas Alice, eu não tive essa intenção! E sim, eu sou péssimo em pegar as coisas no ar.
- Então além de tudo não me conhece direito para saber quando não estou bem?
Quixote a fitou com os olhos tristes. Não sabia mais o que fazer para consertar aquilo e parecia que tudo que dizia se virava contra ele. Nunca havia visto Alice assim tão fora de si, estava triste havia uns dias, mas já não sabia o que fazer.
Preferiu ficar calado e seguiu-se um silêncio desesperador.
Alice se virou de costas e com as mãos no rosto começou a chorar. Um choro calado, mudo.  Vez ou outra era possível ouvir algum soluço.
Quixote se aproximou devagar e lentamente a tocou. –Alice...
Alice se virou o olhando tristemente e o silencio pairou mais alguns instantes. Então Quixote a envolveu em um abraço quente, o qual ela retribuiu e se colocou a chorar por mais alguns instantes.
- Me desculpe Quixote, eu estava errada. Exagerei com você e passei dos limites. Minha semana foi difícil e acabou sobrando pra única pessoa que se importa realmente comigo e que tenta me ajudar. Perdoe-me Quixote, por favor!
-Alice, não se preocupe, vai passar e tudo ficará bem.
- Não sei como você agüenta namorar comigo.
- Primeiro por que não é sacrifício nenhum... segundo por que eu te amo mais que a minha própria vida! É impossível não se apaixonar por você.
Alice enxugou as lagrimas e num sorriso envergonhado deu um beijo salgado, devido as lagrimas, em Quixote.
- Você é mesmo muito bobo....
- Sou... mas tenho dona!
- Ah é?
- É!
- E posso saber quem é?- Perguntou Alice com um riso bobo.
- Você!
Os dois riram por uns instantes quando Quixote diz:
- Mas vai, agora confessa!
- Confessar o que? - Perguntou Alice com cara de dúvida.
- Ficou com ciuminho de mim néééé??
- Ai Quixote, você não vale um real!
- Mas te amo taaaanto!
E os dois caíram na risada novamente, enquanto o dia passava de uma forma mais feliz.